"Um muro alto fecha o jardim. O topo do muro está coberto por cacos de vidro, em cores variadas, presos por cimento. Daqui de onde os vejo lembram-me dentes. Este feroz artifício não impede que, vez por outra, meninos saltem o muro e roubem abacates, nêsperas e papaias. Colocam uma tábua sobre o muro e depois alçam o corpo. Parece-me uma tarefa demasiado arriscada para tão escasso proveito. Talvez não o façam para provar as frutas. Creio que o fazem para provar o risco. Amanhã o risco há-de, talvez, saber-lhes a nêsperas maduras. Imaginemos que um deles venha a tornar-se sapador. Neste país não falta trabalho aos sapadores. Ainda ontem vi, na televisão, uma reportagem sobre o processo de desminagem. Um dirigente de uma organização não governamental lamentou a incerteza dos números. Ninguém sabe, ao certo, quantas minas foram enterradas no chão de Angola. Entre dez a vinte milhões. Provavelmente haverá mais minas do que angolanos. Suponhamos, pois, que um desses meninos venha a tornar-se sapador. Sempre que rastejar através de um campo de minas há-de vir-lhe à boca o remoto sabor de uma nêspera. Um dia enfrentará a inevitável questão, lançada, com um misto de curiosidade e horror, por um jornalista estrangeiro:
«Em que pensa quando desarma uma mina?»
E o menino que ainda houver nele responderá sorrindo:
«Em nêsperas, meu pai.»"
O vendedor de passados
José Eduardo Agualusa